terça-feira, 13 de outubro de 2015

Matrix VI



Matrix VI

Como uma pessoa desconfiaria que está na Matrix?

Se todas as percepções dizem que o mundo é assim mesmo, que o normal é o que sentimos, fica muito difícil para qualquer um descobrir a construção mental da Matrix. A visão da realidade, a visão de mundo da maioria é o que a maioria pensa que é o mundo. É absolutamente lógico isso. Existe um consenso praticamente de todos de como o mundo é. Esse consenso cria a realidade e sustenta a Matrix. Se houvesse uma grande discordância desta visão de mundo a Matrix colapsaria imediatamente. Não uma pessoa aqui e outra ali, mas uma quantidade significativa, digamos 2% já seria suficiente para colapsar a Matrix. Haveria um efeito cascata e logo todos mudariam de visão de mundo.

O que a maioria acredita é a construção mental da visão de mundo. Quando praticamente todos achavam que a Terra era plana, todos viviam numa Matrix de Terra Plana. Levou muito tempo para sair desta Matrix e entrar em outra. É evidente que quem saísse da Matrix Terra Plana teria enormes vantagens comerciais. Poderia dar a volta ao mundo enquanto os demais teriam medo de cair da borda da Terra!

A questão é que para sair de uma Matrix é preciso questionar alguma crença própria. Uma única crença! Seria uma rachadura numa represa. Por mínima que seja a agua começaria a corroer o resto e num determinado tempo a represa explode. Por um único filete de água. Por uma única crença questionada pessoalmente. Se uma única crença provar não ser verdadeira, o próximo questionamento será: qual outra crença que também não é real?

Isso é inevitável. Pode ser no nível inconsciente, mas o questionamento está lá. Atuando sem parar. É por essa razão que nada pode ser questionado dentro da Matrix. 

Neste ponto entra a questão de um cartório dar fé de alguma coisa. Se a pessoa tem dúvida de que a assinatura no documento seja verdadeira, um cartório reconhece a firma e dá fé de que é real. O cartório sabe que é real. A pessoa tem fé. Saber ou ter fé. Essa é a diferença. O cartório não tem crença. Ele sabe que a assinatura é verdadeira. A pessoa tem fé no cartório. Quantas das crenças que temos são fé ou são de saber? As que sabemos que são, nos deixam tranquilos. As que temos fé nos deixam na dúvida. Essa é a questão que Neo tem de enfrentar desde a primeira vez que Morpheus fala com ele. Será que tudo que ele acreditava ser real é real? Ou tudo é falso? O que é real e o que é falso? É preciso rever tudo para saber o que é real ou não. E nesse ponto ele terá de ver o Deserto do Real. Uma única dúvida faz com que ele seja obrigado a ver o Deserto do Real.

É inevitável que acreditemos em alguma coisa. Todo ser humano tem uma coisa chamada credividade. Ele tem de acreditar em alguma coisa. Seja qualquer crença que for. Com base nessa característica humana a Matrix é construída. Não é possível não acreditar em nada. Isso também seria acreditar em alguma coisa. É lógico. A questão que fica é no que acreditar. Quando admitimos que uma única crença não seja verdadeira poderemos sair da Matrix. É por isso que os Cardassianos não admitem uma única dúvida no sistema de governo cardassiano. No sistema de justiça cardassiano o réu é culpado antes de começar o julgamento. Só resta saber de que ele é culpado! A Matrix cardassiana neste ponto não admite nenhuma dúvida sobre o sistema cardassiano. É um exemplo perfeito do que é um paradigma, um sistema de crenças que não admite dúvidas ou erros.

A dúvida neste caso é absolutamente saudável para qualquer pessoa. Embora deva ser mantida em nível estritamente interno. Somente na mente da pessoa a dúvida pode existir. Externa-la é extremamente perigoso. Esta é uma coisa que todos deveriam ter muito claro na mente. Nisso George Orwell foi um gênio da literatura em “1984”.

É muito fácil confundir uma crença sobre coisas do dia a dia do tipo: onde fica a av. Paulista? Com outra crença do tipo: não existe vida em Marte. São coisas completamente diferentes. Uma você tem certeza e outra é apenas uma crença. E ainda é preciso considerar por exemplo, uma pessoa que emigrou para Santo André a trinta anos atrás e nunca foi na Av. Paulista. Eu conheço esta pessoa. Como ela poderia saber onde é a Av. Paulista? Essa também é uma crença para ela, pois nunca foi lá.

A mesma coisa acontece quando colapsamos uma função de onda. As ondas de possibilidades (as infinitas possibilidades) viajam no tempo do passado para o futuro e volta. Vão e voltam. Quando colapsamos uma determinada possibilidade (escolhemos um carro para comprar) ela torna-se uma probabilidade (a onda encontrou com outra onda). Pode vir a tornar-se real se o colapso continuar sendo feito sem uma única dúvida (sem ansiedade). Sempre considerar que existem n colapsos acontecendo ao mesmo tempo. Quando dois motoristas estão se dirigindo para o mesmo farol, quem consegue a luz verde? Os dois estão colapsando para que esteja verde para ele, mas um terá de ficar com o vermelho. Existe um Observador que em última instância colapsa o verde e o vermelho. Portanto, é preciso considerar todas as variáveis (muitas) quando se está colapsando algo!

A questão de tentar mostrar a alguém que está na Matrix é complexa porque a Matrix não pode ser entendida; ela tem de ser vivenciada. Como o Tao. Não é possível descrever o Tao para alguém. Ele tem de ser vivido. Lembram-se daquela pessoa que estava com dívidas e sofrendo muito? Para que ela mudasse a visão de mundo sobre as dívidas foi preciso ler um livro sobre o Tao oito vezes seguidas, até sentir. Nesse momento ficou livre das dívidas. Apenas explicar o conceito de soltar não foi suficiente. Por mais que se explicasse, o intelecto se recusava a entender e aceitar. Foi preciso sentir para que ela mudasse de visão e resolvesse o problema. Quando a pessoa sente que algo é real ela internamente tem uma prova de que é real. A intuição prove essa prova. Mas, intuição é uma coisa e racionalização é outra. O ego gosta de misturar as duas coisas. Por isso é preciso muito cuidado quando se acha que sentiu uma intuição sobre algo. É preciso verificar se a intuição não foi racionalizada para ser o que o ego quer que seja!

O Deserto do Real é algo extremamente profundo. Descobrir até onde ele vai é o trabalho dia a dia de toda pessoa que saiu da Matrix. Pelo menos já foi desconectada da colmeia. Já caiu no esgoto e já vomitou. Está pronta para descobrir por si mesma o tamanho do Deserto do Real. Morpheus facilita isso para Neo e lhe mostra tudo. Evidente que isso é um choque para Neo. Tudo que ele acreditava na sua vida anterior era falso. Elaborar esse conhecimento leva tempo. É uma epifania tremenda. Pode levar anos essa fase. Stanislav Grof deu o nome de Emergência Espiritual para essa fase. É preciso muita paciência nesta fase. Deixar o tempo passar para poder assimilar o novo conhecimento. A mente precisa de tempo para alçar um novo patamar. É o que diz a Teoria das Estruturas Dissipativas de iLya Prigogine. Quando um sistema dá um salto qualitativo ou decai.

Nesse ponto da história é preciso considerar que é muito difícil elaborar as mudanças de paradigma. A mente questiona tudo e precisa testar tudo para saber o que é real ou não. É uma fase de intenso autodescobrimento e autoconhecimento. A pessoa vive como se estive no “mundo da lua”. Sempre pensativa. Analisando tudo e revendo tudo. Leva tempo essa fase. Cada um tem seu próprio tempo para elaborar tudo isso.

Com as novas informações (a pílula vermelha) Neo sabe que existem duas realidades, pois ele está vivenciando as duas. Depois que elaborar tudo isso ele pode entrar e sair da Matrix praticamente sem problemas. A não ser que encontre com o senhor Smith. Esta é sempre uma possibilidade, mas Neo é capaz de enfrentar isso. Talvez ele ainda não saiba que é capaz, mas na sua essência ele é capaz. Descobrir isso é o que Joseph Campbell chamou de “A jornada do herói”. O herói parte para a sua jornada com os conhecimentos adquiridos antes de ser tornar Herói. Esta é uma dificuldade inerente a qualquer jornada. Somente adquiriremos o real conhecimento durante a jornada, mas ela tem de ser empreendida de qualquer forma e com os recursos que tivermos na época. É por isso que não podemos ficar esperando ter a condições ideais para fazer qualquer coisa. É preciso fazer com o que temos nas mãos. Sem ser imprudente ou negligente ou não ter perícia para aquilo. É aqui que a intuição nos ajuda. Usar a razão e a emoção. Equilíbrio. O Caminho do Meio do Buda.

Para saber se uma determinada crença é verdadeira é preciso pesquisar tudo que é possível sobre aquela crença. E isso é uma dificuldade enorme. Já falamos que uma única dúvida pode criar enormes problemas com os Cardassianos. Toda prudência é pouca. A pesquisa que a pessoa deve fazer somente ela deve saber que está fazendo. Depois de levantar todos os dados sobre aquilo será possível ter uma experiência pessoal sobre o assunto e neste ponto poderemos saber ou continuar com fé. Mas, a pesquisa por si só terá valido a pena. Seguir o coelho sempre é interessante e acrescenta muito. É por isso que Neo vai falar com o Oráculo. Ele precisa de alguém que lhe diga o que é verdade. Porém, o Oráculo também não lhe diz nada. O Oráculo também lança um questionamento. Ela diz que Neo parece estar procurando algo! E realmente ele está procurando a verdade. Só que o Oráculo também não pode dizer qual é. Ele não acreditaria. É a questão do Tao. É preciso vivenciar. Neo tem de descobrir por si mesmo. Levará um tempo para Neo descobrir isso. Mas, ele não está mais na Matrix. Conhece os dois lados do espelho. Agora ele tem de viver com esse conhecimento. Não há volta atrás. Ele expandiu sua própria consciência quando tomou a pílula vermelha. Por sua livre vontade.

É lógico que algumas coisas que Neo acreditava são reais. Neste ponto seria interessante ler “O Tao da física” e “O ponto de mutação” de Fritjof Capra. O que era real e o que não era? Somente Neo pode descobrir isso.


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